O último reparador de moinhos do interior de Minas
Antônio, 71, é o único no raio de 200 km.
A estrada de terra sobe em curva fechada antes de chegar à propriedade de Antônio Ferreira. De longe, vê-se o moinho: uma construção de pedra e madeira, com a roda parada. Não parou porque quebrou. Parou porque Antônio está velho e o trigo da última safra ainda não foi moído.
Quando ele conta isso, ri. É o tipo de risada que cobre uma certa tristeza. A gente sobe junto até a levada — o canal estreito que desvia a água do córrego até a roda.
Antônio aprendeu o ofício com o pai, que aprendeu com o avô. A família é de moinheiros desde, pelo menos, 1880 — data que ele conhece porque está numa placa de lata pregada na parede interna.
Hoje, em todo o raio de duzentos quilômetros, ele é o único que ainda sabe consertar uma roda hydraul. Quando um dono de moinho restaurado — há alguns, viraram ponto turístico — precisa de peça, liga para Antônio.
'Eu vou enquanto Deus me der perna', ele diz, sentado num banco de madeira enquanto a água escorre à frente. A frase não é dramática. É descritiva.
O que some junto dele não é uma profissão. É uma paisagem. Sem moinho em movimento, a levada seca. Sem levada, a vegetação de beira de córrego muda. Sem vegetação antiga, a fauna muda. É uma cadeia que a maioria nem vê.
Há tentativa de transmissão. Um sobrinho-neto, de 24 anos, aprende nas férias. Mas mora em Belo Horizonte, trabalha com software. Não vai largar o emprego para consertar roda d'água.
Um projeto da UFV (Universidade Federal de Viçosa) documenta o conhecimento em vídeo e texto. Antônio colabora com boa vontade, mas é cético: 'filme não mói trigo'.
A reportagem passou três dias com ele. No último, a roda voltou a girar — Antônio decidiu moer a safra velha enquanto tinha visita. O barulho encheu o vale. Um vizinho apareceu para ver. 'Fazia dois anos que eu não ouvia isso', disse.
Quando a reportagem foi embora, a roda parou de novo. Antônio ia retomar na semana seguinte, disse. Talvez. Depende das costas. Depende da chuva. Depende de muita coisa que ele, aos 71, já não controla.