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Jornalismo de longa forma
Reportagem

O último reparador de moinhos do interior de Minas

Antônio, 71, é o único no raio de 200 km.

Por Heitor Vasconcelos · 12 de julho de 2026 · 22 min de leitura

A estrada de terra sobe em curva fechada antes de chegar à propriedade de Antônio Ferreira. De longe, vê-se o moinho: uma construção de pedra e madeira, com a roda parada. Não parou porque quebrou. Parou porque Antônio está velho e o trigo da última safra ainda não foi moído.

Quando ele conta isso, ri. É o tipo de risada que cobre uma certa tristeza. A gente sobe junto até a levada — o canal estreito que desvia a água do córrego até a roda.

Antônio aprendeu o ofício com o pai, que aprendeu com o avô. A família é de moinheiros desde, pelo menos, 1880 — data que ele conhece porque está numa placa de lata pregada na parede interna.

Hoje, em todo o raio de duzentos quilômetros, ele é o único que ainda sabe consertar uma roda hydraul. Quando um dono de moinho restaurado — há alguns, viraram ponto turístico — precisa de peça, liga para Antônio.

'Eu vou enquanto Deus me der perna', ele diz, sentado num banco de madeira enquanto a água escorre à frente. A frase não é dramática. É descritiva.

O que some junto dele não é uma profissão. É uma paisagem. Sem moinho em movimento, a levada seca. Sem levada, a vegetação de beira de córrego muda. Sem vegetação antiga, a fauna muda. É uma cadeia que a maioria nem vê.

Há tentativa de transmissão. Um sobrinho-neto, de 24 anos, aprende nas férias. Mas mora em Belo Horizonte, trabalha com software. Não vai largar o emprego para consertar roda d'água.

Um projeto da UFV (Universidade Federal de Viçosa) documenta o conhecimento em vídeo e texto. Antônio colabora com boa vontade, mas é cético: 'filme não mói trigo'.

A reportagem passou três dias com ele. No último, a roda voltou a girar — Antônio decidiu moer a safra velha enquanto tinha visita. O barulho encheu o vale. Um vizinho apareceu para ver. 'Fazia dois anos que eu não ouvia isso', disse.

Quando a reportagem foi embora, a roda parou de novo. Antônio ia retomar na semana seguinte, disse. Talvez. Depende das costas. Depende da chuva. Depende de muita coisa que ele, aos 71, já não controla.

Heitor Vasconcelos — repórter. Escreve sobre Brasil profundo há quinze anos.