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Jornalismo de longa forma
Reportagem

A cidade que perdeu o trem — e quer de volta

Em Apucarana, o retorno do ramal é bandeira política e desejo de morador.

Por Heitor Vasconcelos · junho de 2026 · 18 min de leitura

Apucarana, no norte do Paraná, não vê um trem de passageiros passar desde 1997. Quase trinta anos depois, quer de volta — com uma mistura rara de saudosismo e pragmatismo.

O ramal que ligava a cidade a Londrina foi desativado num pacote de cortes da Ferrovia. A estação virou centro cultural. Os trilhos foram retirados em grande parte. A plataforma virou praça.

O que mudou agora é a conversa. Um movimento local, com apoio de prefeitura e câmara, estuda reativação como trem regional de baixa velocidade — não para competir com ônibus, mas para servir quem não tem carro.

Heitor Vasconcelos esteve na cidade em junho. O argumento dos defensores é econômico: trem barato conecta bairros periféricos ao centro por valor inferior ao do ônibus.

O argumento dos céticos é histórico. O Brasil não conseguiu manter serviço de trem regional em lugar nenhum nas últimas duas décadas. Por que daria certo aqui?

A resposta dos defensores: porque aqui a distância é curta, a densidade é razoável e a topografia é favorável. 'Não é São Paulo–Rio. É Apucarana–Londrina, 80 quilômetros', diz um engenheiro local.

Há exemplo internacional. Cidades médias da Europa devolveram trem regional depois de décadas sem. O modelo é co-financiado com municípios — não depende só do estado.

A pauta virou eleitoral. Dois candidatos a prefeito já apoiaram o estudo de viabilidade. O atual diz que o projeto sai do papel em 2027 se o estado aportar recurso.

O ceticismo da reportagem: já ouvimos essa frase antes, em outras cidades. Mas o movimento aqui tem algo que falta em outros lugares — base popular. A fila para a primeira audiência pública, em maio, lotou a câmara.

Talvez não dê certo. Talvez vire estação cultural restaurada com trem turístico aos domingos. Mas a conversa, em si, já é fenômeno. Cidade média que fala de trem é cidade média que pensa futuro coletivo.

Heitor Vasconcelos — repórter. Escreve sobre Brasil profundo há quinze anos.